domingo, 18 de agosto de 2013

2ª parte: Passeios incríveis no Deserto do Atacama

Primeiro dia: Vale do Arco Iris // Conhecendo as estrelas de perto

Olá pessoal, já instalado em San Pedro de Atacama, acordei na quinta-feira pronto para a primeira aventura: conhecer o Vale do Arco Íris. Ainda no hotel tomei um rápido café, que apesar de ser no meio do deserto, me senti como se tivesse numa capital emergente (risos). Para minha surpresa, havia apenas mais duas pessoas inscritas no passeio, a Raquel e a Monique, ambas do Rio de Janeiro. A viagem até o local onde se iniciaria o trekking durou cerca de duas horas, as paisagens ao longo do percurso eram incríveis. Ao chegar, o guia perguntou o quanto estaríamos dispostos a caminhar, chegamos a um consenso de que 10Km seria bastante razoável. A partir daí, seguimos por caminhos de terra batida, onde as montanhas ganhavam espaço, enquanto que o sol, a medida que o tempo passava, mostrava-se cada vez mais quente.



Por que Vale do Arco íris? Na hora pensei que haveria muitos arcos íris no céu, tal ingenuidade foi diluída ao observamos as grandes montanhas no horizonte, todas elas apresentavam cores distintas umas das outras, conferindo um visual que eu jamais havia visto. Deixarei os detalhes por conta das fotos, uma mais bela que a outra, onde eu tive a rara felicidade em registrar. As meninas estavam empolgadíssimas, aproveitei que elas adoravam fotografar e pedi que tirassem várias fotos minhas como recordação. O passeio durou até as 13h00, momento em que regressamos a San Pedro de Atacama. Antes disso, o guia fez uma parada sob um local, que popularmente é conhecido como o “Vale da Morte”, a temperatura já devia estar na casa dos 30ºC, isso não impediu outra sessão de fotos (risos). A sensação era a melhor possível, o lugar era realmente “deserto” em todos os sentidos, um raro momento em que não havia outros turistas, tínhamos aquela onipresente paisagem somente para nós.



Usei o restante do dia para conhecer a cidade e também procurar algum lugar para jantar. Pelo caminho encontrei de tudo: turistas (boa parte brasileiros), artistas de rua, encontrei por acaso o Kiko (organizador da maratona), dezenas de restaurantes, cachorros correndo de um lado para o outro, lojas de objetos locais e muitas outras curiosidades. San Pedro de Atacama é tão pequeno que não requer muito esforço para conhecer por completo. Em menos de duas horas é possível ir e voltar pela avenida principal, sem perder algum ponto, inclusive as adjacências. Detalhe: tudo pode ser feito a pé. Já os passeios, todos eles fora da cidade, necessitam de veículos do tipo “4x4” ou ônibus. Fui alertado a respeito do uso do protetor solar, já que os raios solares eram intensos e prejudiciais à pele, caso não fossem devidamente protegidos. Sentia um calor estranho, nada que causasse muita transpiração, no entanto, o sol era traiçoeiro, a sensação “abafada” tomava conta do lugar.


Ao anoitecer fui a um restaurante muito agradável (também pelo desconto aos que fossem participar da maratona – risos), onde experimentei uma massa, acompanhado de uma cerveja local (afinal, também sou filho de Deus). Aos poucos, o calor ia dissipando com o vento que assumia o papel principal, de fato, como era esperado, forte calor durante o dia e frio intenso a noite. O lugar tinha ares de tranquilidade, além de um bom repertório de músicas (confesso que adoro músicas de origem latina). Ficava um pouco fora do eixo de grande movimento da cidade (uns duzentos metros da avenida principal), talvez poucos conhecessem ali e por isso nunca estava cheio. Após preencher o estômago com uma boa refeição, retornei ao hotel a fim de descansar, já que ainda teria pela frente o “Tour Astronômico”.




Por volta das 23h00 fui a uma espécie de ponto, situado na avenida principal, de onde partiria o van ao próximo passeio. Foi uma viagem curta, de uns trinta minutos, estava muito frio, apesar disso, eu estava devidamente preparado, usando luvas, touca e roupas pesadas. Ao chegar, a orientadora do local pediu (em espanhol, inglês e alemão) que todos desligassem as lanternas. Estava completamente escuro, não era possível ver absolutamente nada, exceto as estrelas, um cenário impressionante. A orientadora deu uma palestra de aproximadamente uns quarenta e cinco minutos, uma verdadeira aula de astronomia que, apesar de ser um assunto de grande relevância e o conteúdo dominado pela guia, achei um tanto maçante, estava com muito frio e sono, sem contar a hora, nunca em minha vida havia tido uma aula de astronomia em três idiomas, a meia noite, no meio do deserto, passando frio e praticamente dormindo em pé – risos. Como não poderia ser diferente, sempre havia aquele “cara chato”, que sempre faz um monte de perguntas e acaba prolongando a aula.




Já a segunda parte compensou a primeira, passamos a observar as estrelas com o auxílio de vários telescópios, onde era possível ver nitidamente a lua, o planeta Júpiter, além de outros astros. O que mais me impressionou foram os anéis de Júpiter, parecia um desenho, mas aquilo era real. Depois disso, o grupo foi conduzido a um local fechado, onde foram servidos chás de vários sabores, não lembro qual escolhi, só lembro que estava bem amargo. Sentamos em bancos dispostos em posição “u” quando um senhor de meia idade contou várias histórias, desde a origem do lugar, passeando por vários episódios da história (relacionados a planetas, estrelas cadentes, cometas etc.). Já passava das duas horas da manhã quando retornamos a San Pedro.



Segundo dia: Salar de Tara

Não tive muito tempo para descansar, dormi cerca de três horas, pois na sexta-feira pela manhã haveria outro tour: o Salar de Tara. Pelas referências obtidas, fui informado de que seria um dos melhores passeios, situado num dos pontos mais remotos da região. Tive a companhia da minha amiga Luciane Mildenberger, que possui o site Correndo a Mil, uma menina espetacular, linda, simpática, alto astral e muito empolgada com a viagem. O trajeto durou cerca de duas horas ou mais, lembro que teve uma parada para fotografar. Quando chegamos ao Salar de Tara, parecia cena de filme: um vasto de infinito deserto, algumas “miragens” no caminho (na verdade Monges de Pacana, grandes rochas verticais, mas qualquer um podia jurar ser algo provido da imaginação). O calor novamente assumia o centro das atenções, o grupo de turistas, dos mais diferentes países, acompanhavam o guia sem muita pressa, realmente era um visual que “embriagava” os olhos.



Outra coisa que vocês precisam saber: estávamos nada menos que 4.400 metros altitude, isso significava que muitos poderiam sofrer com aquela sensação, com quedas de pressão, náuseas, dores estomacais etc. Já estávamos com quase três horas de tour e eu não havia sentido nada de anormal, até aquele momento o corpo reagia normalmente a situação apresentada. Caminhava a passos lentos, nada de pressa, o deserto era traiçoeiro, tencionava realizar o passeio da melhor maneira possível. Em determinado momento, deparei com as “Catedrais de Tara”, gigantescas esculturas de pedras, que lembravam antigos castelos medievais. Seguiu-se uma sequencia insana de fotos, queria tirar foto a cada passo que dava, uma locação para filme de faroeste – risos.



E como tudo no deserto é misterioso e às vezes inexplicável, chegamos a um enigmático lago tomado por flamingos. Pela posição deles, pareciam estar em reunião, visto a disposição organizada e simétrica das aves. Fizemos uma pausa para um lanche, antes de tomarmos o caminho de volta. Senti uma leve sensação de mal estar, fato que atribuo pelas poucas horas de sono, apesar dos agravantes do local (temperatura, umidade etc). Foi um passeio caro, perto dos duzentos reais, mas que valeu a pena cada centavo. A Luciane foi a minha fiel companheira nesse dia inesquecível, pois explorar uma região de restos vulcânicos, areia fofa, formações rochosas abstratas, flamingos entre outros mistérios da natureza, certamente é algo que ficará marcado para sempre. Esse é o grande barato da vida: a cada dia que passa temos a nítida constatação que temos muito que explorar da vida.



Retornamos por volta das 16h00, realmente havia sido um passeio longo, tirei umas horas de sono, para recarregar as energias. A noite, fui jantar com a minha amiga Luciane no mesmo local da noite anterior (ela adorou o lugar). Dessa vez, deixei a cerveja de lado e optei pela boa e velha coca cola, com a fogueira acesa, tivemos uma ótima refeição coberto por aquele céu estrelado (além de ótimas risadas). Como não poderia ser diferente, tive que retornar ao hotel, já que a programação para sábado exigiria o meu despertar nada menos que as 03h00 da madrugada! Isso mesmo, o próximo tour seria conhecer o famoso “Geyser del Tatio”, fenômenos naturais em que vapores saem através de fissuras na crosta terrestre (combinação de rios congelados subterrâneos com rochas quentes). E também o dia para a retirada do kit para a temível maratona no dia seguinte.



Terceiro dia: Madrugando para ver o Geyser del Tatio // Retirada do kit da Maratona

Acordei muito cedo, o bom foi que o hotel preparou um lanche, já que não foi possível aproveitar o café da manhã. Devia estar uns 4ºC naquela madrugada, mais uma vez roupas pesadas para combater o frio, dessa forma, a viagem com o grupo de turistas durou aproximadamente uma hora de quarenta minutos. O guia falava castellano e inglês, fornecia algumas informações sobre os gêiseres, sobre a temperatura entre outras coisas. Ao chegarmos foi difícil sair da van, pois a temperatura já havia despencado para os quatro graus negativos, isso porque eu estava praticamente uns cinco quilos mais pesado de tanta roupa (risos). A exemplo do dia anterior, também estava a aproximadamente 3.800 metros de altitude, por isso nenhum esforço demasiado, já poderia sentir efeitos colaterais.



Outro passeio fantástico, observar as atividades dos gêiseres foi algo espetacular, difícil explicar, pude fotografar rente às fissuras, o que me proporcionou uma experiência sem igual, nunca vi algo parecido antes. Um rápido lanche foi servido, com pão com presunto, chocolate quente e biscoitos. Mas o ponto alto foi quando o guia falou a respeito do lago dos gêiseres, a quem tivesse interesse poderia entrar e permanecer por uns quarenta minutos, relutei no início, depois gostei da ideia, mesmo com aquele frio encarei o pequeno lago. Parecia uma verdadeira piscina aquecida, muitos turistas fizeram o mesmo, tinha levado toalha (conforme recomendação recebida no ato da compra do ticket para o passeio), então quebrei mais um paradigma e entrei na água. Fui surpreendido pela Raquel (do 1º passeio), que me encontrou e tiramos várias fotos no lago.



Nesse passeio conheci o casal Thiago e Daniell a Cerdeiro, que Curitiba, que estavam lá para o evento do Mountain Do. Já no retorno, fizemos uma pausa para observar um lago onde uma espécie rara de patos pretos jazia, também observei grupos de lhamas correndo livremente pelas montanhas afora. Um momento inusitado, pensando que o passeio havia terminado, ainda no caminho de volta, paramos num povoado muito pequeno, penso que não seria nem notado caso não tivesse parada programada. Chamada de Machuca, o lugar era extremamente silvático, entranhado entre montanhas, pouco difuso e de difícil localização. Havia apenas uma rua, precisamente uma demarcação de um caminho e pouquíssimas casas compunham o local, além de uma igrejinha, afirmando mais uma vez que a religiosidade é uma das prática sempre cultuada, independente do lugar. Tive o prazer de experimentar o churrasco de lhama, uma carne macia e deliciosa.



O retorno foi tranquilo, cheguei a San Pedro e combinei com as meninas (Raquel e Monique) de almoçarmos juntos. Nesse dia, estava programada a entrega do kit de participação da maratona. Tirei várias fotos, encontrei alguns brasileiros, entre eles o casal João e Aparecida Guimarães, que sempre estão nas corridas de montanha e também fiz novas amizades. Assisti ao congresso técnico, feito pelo Kiko (organizador do evento), ele transmitiu algumas informações importantes, reiterou sobre os cuidados que deveríamos ter no deserto, disse que a maratona era um evento comemorativo e que não havia tempo limite para término (consta no regulamento como algo de praxe), mas que faria todo o possível para incentivar todos a terminarem a prova. Dicas importantes a respeito da sinalização do percurso, do desvio daquelas que correriam as distâncias menores (23 e 6 km respectivamente), além da hidratação.




O kit era composto de uma camiseta, um boné longo (próprio para o deserto), uma cinta de hidratação (adorei a ideia), além de uma flanela para ser utilizada no rosto a fim de inibir poeira desértica. A minha “ficha” estava começando a cair naquele momento, depois de algumas aventuras, lá estava eu, no Deserto do Atacama, prestes a iniciar um dos maiores desafios da minha vida. Eu encarava tudo aquilo com muita tranquilidade, muita gente estava “pilhada”, notei alguns corredores tensos, preocupados, em êxtase, eu apresentava exatamente o oposto, não sei se pelo fato de correr há mais de dez anos e conhecer bem a atmosfera que antecede uma prova, nem mesmo a contusão que me atrapalhou nos treinos alterava o meu semblante. Não sei se o excesso de confiança (eu sabia que de um jeito ou de outro eu ia terminar a prova) fosse a razão temerária que estava sentindo naquele momento. Até aquele dia nunca abandonado uma prova (no decorrer dela), sabia que estava me arriscando muito, mas mesmo assim não me deixei abater um só instante.





As meninas me acompanharam no jantar, fomos breves, pois tínhamos que recolher cedo, afinal, o dia seguinte prometia ser o mais extenuante de todos, seriam os quarenta e dois quilômetros mais longos, quentes, arriscados, traiçoeiros e “maravilhosos” que já havia feito até então. Deixei tudo preparado, pedi a recepção do hotel que me acordasse (precaução nunca é demais), o momento era de concentração e descanso (do corpo e da mente). No próximo capítulo, contarei em detalhes esse grande desafio, já que para conhecer o deserto, é preciso atravessá-lo...e foi o que eu estava disposto a fazer!



5 comentários:

  1. Paisagens incríveis e inspiradoras!
    Além de um belo guia para futuros "exploradores"!
    Parabéns pelo blog, Daniel!
    bjs
    Kátia

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  2. Oi Daniel,

    Muito legal sua aventura no Atacama, um dia tenho vontade de fazer esta prova!

    Abs
    Rodrigo Lucchesi
    http://revistacontrarelogio.com.br/blogs/linhas-de-chegada/
    @rdlucchesi

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  3. Parabéns pelo blog. Muito bacana!!

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  4. Uauuuuu!!!! Só esses passeios por lugares improváveis e fora do circuito turístico, (no sentido de juntar multidões, rs), valeu seu 42 km!!!! Sensacional!!!! Realmente existe lugares inexplicáveis, inexplorados e não conhece-los, experimentá-los é algo fora da realidade de um corredor aventureiro como você! Parabéns!!! Adorei! bjo

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